«O que está em jogo no controlo da Esplanada das Mesquitas em Jerusalém?», por Pierre Prier

Mais uma vez, a Esplanada das Mesquitas em Jerusalém, violentamente invadida pelas forças israelitas nos últimos dias do Ramadão 2022, encontra-se no coração do conflito israelo-palestino. A história do lugar é complexa, como mostram os seus diferentes nomes. Para os judeus, é o Monte do Templo (Har haBayit em hebraico). Para os muçulmanos, é o Haram Al-Sharif, o «Santuário Nobre» onde se situam a Cúpula da Rocha, com o seu zimbório dourado, e a Mesquita Al-Aqsa («a longínqua»). A expressão «Esplanada das Mesquitas», aparentemente, apenas é utilizada em França.

Diz-se que o primeiro templo judeu construído pelo rei Salomão estava aí localizado, uma tradição que até agora não foi confirmada por provas arqueológicas. Por outro lado, está provada a existência do segundo templo no mesmo local. Completamente arrasado pelo imperador romano Tito em 70 d.C., dele só resta um muro que se tornou o lugar mais sagrado do judaísmo, o «Muro Ocidental» (HaKotel HaMa'aravi). O nome «Muro das Lamentações», utilizado pelos escritores cristãos é considerado desrespeitoso pelo judaísmo. Judeus de todo o mundo vêm aqui para rezar. Os muçulmanos chamam-lhe o «Muro de Buraq» (al-Ḥa'iṭu 'l-Buraq) porque, de acordo com a tradição, foi aqui que o Profeta amarrou o seu cavalo alado Buraq, que o tinha transportado desde Meca até Jerusalém. Maomé voou então para os céus onde conheceu Adão e os profetas, incluindo Jesus, e depois o próprio Deus.

Após a destruição do segundo templo, a esplanada foi mais ou menos abandonada pelos diferentes ocupantes de Jerusalém: romanos, bizantinos ou persas. O Islão devolveu-lhe o seu valor. No século VII, os califas omíadas construíram a Mesquita de Al-Aqsa e depois a Cúpula da Rocha, sobre a pedra da qual se diz que o Profeta partiu na sua «viagem nocturna». Durante o reinado dos Cruzados no século XII, a Cúpula tornou-se uma igreja e Al-Aqsa um palácio.

Este lugar de religião está sobrecarregado de significado político. «É aí que reside a irredutibilidade do conflito [...] com uma confusão total entre o nacional e o religioso, tanto por parte do israelitas como dos palestinos», escreve o historiador Henry Laurens no último volume da sua Question de Palestine (Fayard, 2015).

Este rectângulo de 0,15 km2 situado na Cidade Velha continua à espera de um estatuto definitivo, nenhum dos lados querendo renunciar à sua soberania. No final da guerra de 1967, o exército israelita conquistou a parte oriental de Jerusalém, até então sob o domínio jordano. Numa noite, arrasou o «bairro magrebino» junto ao Muro para o substituir por uma esplanada pavimentada. O grande rabino do exército queria ir mais longe: rebentar com a Cúpula da Rocha e reconstruir o templo. Consciente do risco de uma grande confrontação com o mundo muçulmano, o governo israelita instituiu o status quo que continua até hoje: Israel garante a «segurança» da esplanada, que é gerida por uma waqf (fundação religiosa) jordana. É esta que autoriza ou não os não-muçulmanos a visitar o local. Mas os fiéis de outras religiões nunca são autorizados a rezar ali.

Isto não impede grupos de judeus fanáticos de visitar regularmente o local para reclamar a sua propriedade. As forças israelitas, por seu lado, não coíbem de exercer o seu direito de garantir a «segurança». O Haram Al-Sharif tem assim servido muitas vezes como ponto de partida para revoltas palestinas. Em 1990, o movimento ultranacionalista judeu dos Fiéis do Monte do Templo quis ir à esplanada para rezar e colocar a primeira pedra de um novo templo. Os palestinos manifestaram-se em massa. A polícia israelita abriu fogo sobre a multidão, matando 22 pessoas. Em 1996, a escavação por Israel de um túnel arqueológico ao longo da esplanada desencadeou motins: 70 palestinos morreram, 17 soldados israelitas foram mortos.

E foi aqui que a segunda Intifada, chamada «Intifada al-Aqsa» pelos palestinos, começou em Setembro de 2000. A revolta foi uma resposta a uma provocação israelita: a «visita» à esplanada do futuro primeiro-ministro de direita Ariel Sharon, então na oposição, rodeado por centenas de polícias. Um gesto altamente político, enquanto as negociações para uma solução de dois Estados estavam prestes a falhar, principalmente devido ao estatuto do Haram Al-Sharif / Monte do Templo. No dia seguinte, após a oração de sexta-feira, jovens palestinos atiraram pedras aos fiéis judeus que rezavam em baixo junto ao muro. A polícia israelita invadiu a esplanada e matou 7 pessoas. Foi o início de uma revolta que deixou cerca de 1000 mortos no lado israelita e mais de 3000 no lado palestino. Desde então, a Esplanada das Mesquitas continua a ser governada, em teoria, pelo status quo de 1967., um status quo parece muito frágil sob um governo nacionalista israelita cada vez mais radical.


Pierre Prier é jornalista. O seu primeiro contacto com o Médio Oriente remonta a 1987, com a primeira intifada. Deixou o jornal Le Figaro ao fim de 21 anos a cobrir o Médio Oriente e África. Cobriu a segunda intifada enquanto chefe da delegação de Jerusalém entre 2000 e 2004.


Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal digital Orient XXI, em 9 de Maio de 2022, e é aqui reproduzido, com permissão do autor, numa tradução de responsabilidade do MPPM


Os artigos assinados publicados nesta secção, ainda que obrigatoriamente alinhados com os princípios e objectivos do MPPM, não exprimem necessariamente as posições oficiais do Movimento sobre as matérias abordadas, responsabilizando apenas os respectivos autores.


Foto: Polícia israelita protege colonos que invadem a Mesquita de Al-Aqsa

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