Home Tributo a Silas Cerqueira
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HOMENAGEM A SILAS CERQUEIRA

No passado dia 29 de Novembro, a anteceder a sessão comemorativa do Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, realizada na casa do Alentejo, em Lisboa, o MPPM prestou uma singela mas merecida homenagem a Silas Cerqueira. Figura incontornável do Movimento da Paz em Portugal, militante, dirigente e académico prestigiado internacionalmente, Silas Cerqueira foi um defenso activo da causa do povo palestino, estando na génese da constituição do MPPM.

O vídeo que foi apresentado nessa sessão, e que aqui divulgamos, traça uma síntese, necessariamente breve, do que foi a actividade de Silas Cerqueira, das grandes iniciativas que dinamizou e do papel influente que teve na acção do MPPM. O perfil de Silas Cerqueira é esboçado por cinco individualidades que com ele conviveram, cujos testemunhos podem ser lidos na íntegra mais adiante. A lucidez e pertinência do pensamento de Silas Cerqueira são ilustrados com extractos de intervenções suas.

video silas cerqueira

 
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Testemunho de Frei Bento Domingues, O.P.

frei bento dominguesEu conheci pessoalmente Silas Cerqueira a seguir ao 25 de Abril. Veio visitar-me com a separata «L'Église catholique et la dictature corporatiste portugaise», da Revue française de science politique (Année 1973, vol.23 n.3, pp. 473-513). Mostrou-se muito interessado em ampliar a colaboração com os católicos progressistas. Tentei mostrar-lhe que os chamados católicos progressistas estavam inseridos em diferentes movimentos, organizações sindicais e partidárias não confessionais e que a febre pluralista mostrava-se alérgica até à própria designação de católicos progressistas. Como eu não era um alinhado, estava disposto a colaborar com todas as organizações e movimentos para os quais a democracia e o combate às causas da pobreza fosse fundamental. A defesa dos direitos humanos continuava a ser a causa de todas as minhas causas.

Silas Cerqueira percebeu que haveria sempre pontos de convergência e de divergência. A colaboração teria pela frente um vasto campo para se exercer, como aconteceu, sobretudo nos empenhamentos pelas causas da paz.

Há muita gente a exaltar a militância política de Silas Cerqueira. Com mil razões!

Mas eu destaco sobretudo o extremo carinho que dedicou à sua esposa admirável nos anos em que ela esteve mais doente e com mais preocupações religiosas. Confesso que foi nos imensos trabalhos desse afecto que Silas Cerqueira despertou em mim uma grande admiração e amizade que a morte não apaga.

Frei Bento Domingues, O.P.

 
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Testemunho de Miguel Urbano Rodrigues

SILAS, COMUNISTA E IDEÓLOGO

miguel urbano rodriguesContactei Silas Cerqueira pela primeira vez no início dos anos 70.

Escrevi-lhe pelo Portugal Democrático, que era o órgão dos antifascistas portugueses da América. Ele desenvolvia então um importante trabalho em Paris como ativista revolucionário.

Voltei a encontrá-lo em Portugal após o 25 de Abril. Mas somente anos depois a nossa relação evoluiu da camaradagem para a amizade.

Em Praga, na Assembleia do Conselho Mundial da Paz, tivemos a oportunidade de falar durante horas sobre múltiplos temas.

Apercebi-me do seu grande prestígio internacional e de uma cultura humanista pouco comum.

Nos anos 90 coincidimos duas vezes em Joanesburgo, durante o Congresso do ANC e nas eleições que levaram Mandela à Presidência. Em ambas as ocasiões ajudou-me a compreender o complexo processo de transição da África do Sul. Eu era então deputado e representava o Partido Comunista Português. Recordo que alugámos um carro para acompanhar a votação no Soweto e em Alexandra. Graças a Silas, conheci e entrevistei o secretário-geral do Partido Comunista da África do Sul.

Inesperadamente, encontrámo-nos em Nova York. Eu representava o PCP nos debates sobre Timor Leste no Conselho Económico e Social das Nações Unidas. Silas Cerqueira, convidado por uma organização internacional, tinha pronunciado na cidade uma conferência.

Foram dias inesquecíveis para mim. Silas, apesar do seu carácter reservado, contou-me que fora nos Estados Unidos que se havia tornado comunista, paradoxalmente na Universidade de Columbia, onde estava Teologia. O contacto com marxistas americanos marcou tão profundamente o jovem português que desistiu do sacerdócio. Ali teve início a sua fulgurante carreira de revolucionário profissional.

Em Paris licenciou-se em Ciências Políticas e, como militante do PCP, desempenhou no exílio importantes tarefas.

No Conselho Mundial da Paz, onde representou Portugal durante muitos anos, o presidente Romesh Chandra tinha em grande apreço o seu talento e firmeza na defesa das grandes causas da humanidade.

Em Portugal foi um dos principais organizadores da Conferência de Solidariedade com o Povo Árabe e a Palestina, a Conferência Internacional de Solidariedade com o Estados da Linha da Frente, em l983, e a Conferência Internacional de Solidariedade com a Revolução Sandinista, em 1989.

Silas — que dividia o seu tempo entre Portugal e a França — foi professor na Universidade de Braga.

Ninguém contribuiu tanto como ele em Portugal para a causa da solidariedade com a Palestina martirizada.

Comunista exemplar, revolucionário ético, modesto, desinteressado de bens materiais, viveu e morreu na fronteira da pobreza.

Na minha opinião, Silas Cerqueira, destacada personalidade das lutas pela Paz, foi — creio não exagerar — uma das melhores cabeças políticas de Portugal nos últimos cinquenta anos.

Miguel Urbano Rodrigues

 
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Testemunho de Isabel Allegro de Magalhães

IN MEMORIAM

isabel allegro magalhesSilas Cerqueira foi e, na memória de um grande número de pessoas, em Portugal e noutros países, continuará a ser, um homem grande, com a alma à dimensão do mundo.

No sentido excessivo que o dar a própria vida tem, Silas deu de facto a sua vida por um amplo ideal: o de uma autêntica solidariedade entre os humanos sobre a Terra. Era um militante nato, por uma grande causa. Cedo no seu percurso, encontrou no Partido Comunista o enquadramento certo para a sua forma de ver a Vida e a História. E aderiu de corpo inteiro até ao fim, nunca brincando em serviço. Com saúde e sem ela, persistia, e perseguia o que entendia ser necessário fazer.

Uma das suas lutas, e nos últimos largos anos do seu percurso seguramente a luta central, foi a de reunir forças dentro e fora do país para uma pressão internacional eficaz em ordem à libertação da Palestina. Pressão para que fossem finalmente cumpridas as decisões tomadas pelas Nações Unidas quanto à existência de dois Estados soberanos no Médio Oriente: Palestina e Israel. É que, apesar da multiplicação de declarações da ONU quanto a essa decisão inicial e outras posteriores que a completavam, com uma definição clara dos territórios de cada país, nada disso foi ainda, como se sabe, posto em prática. Perante o sofrimento do povo palestino, o que há é um escandaloso silêncio e pactuação internacionais.

Ora no contexto dessa necessidade gritante, o Silas veio a minha casa convidar-me para constituir, com ele e outras pessoas, um movimento de apoio à causa palestina. (Curiosamente, eu tinha estado ligada à mesma causa nos anos 80 nos EUA e depois cá, no meu regresso a Lisboa.)

Aderi, claro, sem reticências, nem sabendo que me estava reservada, a mim conjuntamente com Mário Ruivo, a presidência do Movimento para a Libertação da Palestina e a Paz no Médio Oriente — o MPPM —, nascido meses depois e que é hoje uma presença significativa, bem audível, na sociedade portuguesa.

Sempre gostei do Silas Cerqueira. Sempre o admirei, na paciência e habilidade com que trabalhava tácticas em ordem a uma estratégia final, na cordialidade para com quem pensava em muita coisa diferentemente dele, na intenção de reunir forças diversas para um mesmo fim, na firmeza com que se mantinha em linha sempre que era necessário. Se algum defeito tinha, era consequência de uma qualidade: a insistência e persistência, quase teimosia, sempre levadas ao limite. E porquê? Por tratar-se daquilo em que a fundo acreditava.

Era também, sem dúvida, quem na sociedade portuguesa melhor conhecia a história da Palestina e os contextos concretos da violência da ocupação a que os sucessivos governos de Israel (sem o consentimento de muitos judeus…) sujeitaram — e continuam a sujeitar — todo um povo.

Mas, convivente com esta face do Silas, uma outra completa de forma admirável, belíssima, a pessoa que era: a expressão concreta, mesmo em tempos difíceis, do amor e da imensa ternura que manteve pela Antónia, sua Mulher, a quem acompanhou até ao fim com um desvelo palpável para todos os que com o Silas convivemos de perto. Não falhava a nenhum dos seus compromissos, tal como não falhava igualmente à sua intensa presença a Antónia — cirurgiã em Paris e que no final dos seus dias teve uma doença neurológica grave que exigiu um contínuo acompanhamento. Silas sempre lhe deu todo o apoio, atenção e carinho.

Neste contexto, lembro-me do que escreve o filósofo francês Alain Badiou no seu Éloge de l’amour: «No conteúdo da palavra “comunismo” não há uma relação imediata com o amor. No entanto, essa palavra traz, também para o amor, novas condições de possibilidade.»

Nos últimos anos, depois de ter deixado a co-presidência do MPPM, quase não mais vi o Silas. Recordarei sempre com alegria a frontalidade e a bondade que o caracterizavam.

Isabel Allegro de Magalhães

 
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Testemunho de José Neves

MILITANTE DE CAUSAS NOBRES

jos nevesDar o meu testemunho sobre o Dr. Silas Cerqueira é para mim uma enorme satisfação, aparentemente uma tarefa difícil, pois trata-se de abordar uma personalidade complexa. De semblante normalmente carregado, numa primeira impressão fica-se com a imagem de alguém com quem não seria fácil dialogar. Percepção errada, pois Silas era um homem de diálogo, convívio e debate pelas suas convicções. E entre a defesa dos valores por que se debatia, uma nos agregava com forte sentimento de solidariedade: a causa da emancipação da Palestina.

De facto, foi no contexto desta nobre causa da defesa dos direitos do povo palestino que tive oportunidade de o conhecer. Foi em 1979. Silas Cerqueira, dirigente do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), conduziu, em nome desta organização, um evento internacional de enormes repercussões: a «Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina», realizada em Lisboa, com a presença do legítimo representante do povo palestino, a OLP, cuja delegação foi encimada pelo seu Presidente Yasser Arafat. Foi a primeira vez que esta personalidade esteve na Europa Ocidental, o que teve um enorme impacto a nível mundial, quebrando o isolamento da Palestina, contribuindo assim para uma nova visão da situação no Médio Oriente. Com efeito, a Conferência, promovida pelo Congresso do Povo Árabe e um Comité Internacional com representantes dos continentes das Américas, Europa, Ásia e África, com a duração de quase uma semana, atraiu as atenções da imprensa mundial, representada por largas dezenas de jornalistas.

E todo este arrojado e inédito cometimento, com comissões temáticas funcionando em simultâneo e por vários dias, deve-se, em grande parte, à maestria de Silas Cerqueira, que dinamizou e coordenou a realização da Conferência Mundial, congregando em Lisboa organizações e personalidades solidárias com o mártir povo da Palestina. Estive presente neste importante areópago internacional integrando a comissão que representou o Partido Socialista, circunstância que me proporcionou conhecer Silas Cerqueira e ter conhecimento da sua capacidade de organização e coordenação de um evento tão importante e complexo.

Como dirigente do CPPC, a sua vocação internacionalista e pela Paz levou-o a promover outras iniciativas de solidariedade com povos em luta pelos seus direitos.

Porém, o nosso relacionamento pessoal iniciou-se em 2005 por ocasião de outra feliz iniciativa individual do incansável Silas. Novamente de apoio solidário ao povo da Palestina, mas agora no âmbito da sociedade portuguesa. Depois de porfiados esforços constitui-se a associação «Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela paz no Médio Oriente» (MPPM), tendo entre os seus fundadores membros de partidos de esquerda e personalidades diversificadas de instituições e da Igreja Católica, o que foi possível devido ao seu espírito congregador de vontades. Como Coordenador da Comissão Executiva os seus persistentes esforços conduziram à estruturação do MPPM, e assim constituiu-se em associação sem fins lucrativos e prosseguiu os objectivos estatutários de divulgação e promoção de informações da situação política na Palestina e de solidariedade com o seu povo.

No que respeita às relações internacionais, que assumiu como Secretário desta área em acumulação de funções, os seus contactos privilegiados com instituições e personalidades a nível mundial e conhecimentos adquiridos pela sua participação em conferências e simpósios internacionais proporcionaram a vinda a Portugal de diversas individualidades, incluindo uma delegação das Nações Unidas, para participarem em colóquios e conferências promovidos pelo Movimento. O reputado prestígio de Silas Cerqueira foi igualmente decisivo para o competente comité das Nações Unidas proceder à acreditação do MPPM como «Organização Não Governamental».

Como homem público foi um combatente antifascista e anticolonialista, lutador pela cooperação e pela Paz entre os povos. Na sua vida privada foi pessoa íntegra e humana, leal aos amigos com quem convivia, e quando enfermos não deixava de os visitar ao hospital.

Não poderei deixar igualmente de testemunhar a dedicação e o carinho enternecedor com que cuidava de sua esposa, Antónia Lapa, a sua Toninha, como afectuosamente a tratava. Companheiros de uma vida, comungando dos mesmos ideais, foram ambos presos na juventude pelos algozes da ditadura. Conheci a Dr.ª Antónia Lapa já num período em que a sua saúde estava bastante degradada e tive oportunidade de observar os esforços e o desvelo com que Silas tratava a sua Toninha. Nunca vos esquecerei!

José Neves

 
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Testemunho de Vasco Pinto Leite

vasco pinto leiteNão são precisas muitas palavras para traduzir o ideal e o gesto pela paz de Silas Cerqueira. Ele conseguiu aquilo que é sempre mais difícil e acaba por se tornar simples: a síntese da imagem do seu discurso e do seu percurso político.

O Silas era um homem culto, exaustivamente informado sobre os problemas a que se dedicava para agir em conformidade. Com verdade e isenção. A sua biblioteca impressionava pela qualidade e diversidade temática. Continha preciosidades. Já em data recente, eu próprio ajudei, a seu pedido, a organizar e empacotar grande parte deste seu espólio que em boa hora doou à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Ele era também um homem de convicções firmes, tão firmes quanto flexíveis nas suas determinações para conseguir democraticamente os objectivos a que se propunha. Atingiu uma inteligência política ímpar e esforçou-se por fazer escola disso mesmo. A luta pelas boas causas, a luta pela paz, exige sempre uma generosidade imensa em confronto com interesses egoístas colossais, usualmente contaminados por poderosas forças de desinformação. Silas nunca deu tréguas aos esforços que desenvolvia para trazer para a causa da paz todas as vontades sérias e contributos bons, viessem donde viessem. Nunca hesitou nessa linha. Jamais privilegiou argumentos sectários.

Eu pude testemunhar de perto este exemplo, pois integrei desde os primórdios do CPPC, nos anos 70, os respectivos órgãos directivos. Seja na composição e actuação destes órgãos, seja na redacção dos comunicados públicos, o Silas procurava sem descanso — e conseguia — os consensos de equilíbrio de opinião entre as forças participantes que, deste modo, tanto o respeitaram, não obstante a manifesta contrariedade de alguns quadros políticos relevantes, com responsabilidades cívicas que os deveriam colocar muito acima das acomodações partidárias à propaganda conveniente aos grandes blocos políticos internacionais

Foi esta a grande lição — linha de acção — que o Silas Cerqueira nos legou, os passos a cada momento possíveis e aconselháveis que nos responsabilizam para uma cidadania nacional e na comunidade internacional, num sentido de maior justiça e equilíbrio social, contra o saque e a desagregação desenfreada da humanidade resultante, sobretudo, das tentativas neoliberais sem escrúpulo de domínio geoestratégico, morte e sofrimento massivos dos povos.

Vasco Pinto Leite

 
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FALECEU SILAS CERQUEIRA

silas cerqueiraFoi com profundo pesar que o MPPM- Movimento pelos Direitos dos Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente – tomou conhecimento do falecimento de Silas Coutinho Cerqueira, seu membro fundador, dirigente e grande impulsionador, ocorrido ontem. O seu velório terá lugar na Casa da Paz, sede do Conselho Português para a Paz e Cooperação, em Lisboa, na Rua Rodrigo da Fonseca, 56, 2º, entre as 17h e as 22h de Quarta-feira, 24 de Agosto e as 10h e as 16h de Quinta-feira, 25 de Agosto. O seu funeral terá lugar no cemitério do Alto de São João, na Quinta-feira, a partir das 17h00.

Combatente incansável da luta pela paz, Silas Cerqueira dedicou a sua vida à causa da paz e da cooperação, da solidariedade entre os povos e da luta contra o racismo, o colonialismo, o apartheid e todas as formas de discriminação e exploração. Lutador antifascista destacado, preso em diversas ocasiões pela polícia da ditadura, personalidade de renome e prestígio internacional, Silas Cerqueira deixa o seu nome ligado às mais importantes iniciativas e movimentos de opinião pública promovidos em Portugal, antes e depois do 25 de Abril, relacionados com a luta pela paz e a solidariedade entre os povos. De entre as muitas e variadas lutas em que se envolveu, Silas Cerqueira sentia, com especial intensidade, o drama do povo palestino e a constante ameaça para a paz que constituía a situação no Médio Oriente, a qual conhecia profundamente em resultado das suas muitas visitas à região.

Foi o grande obreiro da realização, em Lisboa, em Novembro de 1979, da Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina. Promovida pelo Congresso do Povo Árabe e um comité internacional representativo da América do Norte e da América Latina, da Europa, África e Ásia, a Conferência foi organizada, no plano nacional, pelo Conselho Português para a Paz e a Cooperação, e contou com o apoio de um amplo leque de personalidades e associações democráticas, cívicas, humanitárias e religiosas. A presença, em Portugal, durante esses dias, do Presidente da OLP, Yasser Arafat – a sua primeira visita a um país da Europa Ocidental, durante a qual foi recebido pelo Chefe de Estado e o Primeiro-Ministro, então, respectivamente, General Ramalho Eanes e Engenheira Maria de Lurdes Pintassilgo – reforçou o alto significado deste acontecimento, que marcava, simbolicamente, o início do reconhecimento, na Europa Ocidental, da OLP e, em geral, da causa palestina.

Como polo agregador de vontades em defesa dos direitos do povo palestino, Silas Cerqueira promoveu, em Fevereiro de 2004 – nos dias em que se reunia sobre a questão o Tribunal Internacional de Justiça de Haia – o lançamento do abaixo-assinado “Não ao Muro de Sharon”, que recolheu adesões de um número significativo de individualidades representativas dos mais variados sectores da actividade portuguesa, o qual apresentou publicamente na reunião Internacional das Nações Unidas sobre «O impacte da construção do Muro no Território Palestino Ocupado, incluindo em Jerusalém e à sua volta» que decorreu em Genebra, em 15 e 16 de Abril de 2004.

Em Junho de 2005, lançou as bases da constituição do MPPM com o documento “Razões, Princípios e Objectivos da Constituição de um Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente”, que viria a ser subscrito por um leque significativo de individualidades, e fundamentava a necessidade de constituição de um movimento português para defesa dos direitos do povo palestino definindo, desde logo, o que deveriam ser as suas linhas de orientação.

A Comissão Instaladora, que integrava, criou as condições para que, 9 Agosto de 2007, o MPPM se constituísse como associação sem fins lucrativos.

Silas Cerqueira integrou sempre a Direcção Nacional do MPPM, onde desempenhou os cargos de Coordenador da Comissão Executiva e de Secretário para as Relações Internacionais.

A relação de amizade que mantinha com José Saramago, outro militante de longa data da causa palestina, permitiu que este aceitasse o convite para presidir à Assembleia Geral do MPPM, cargo que ocupou até ao seu falecimento.

Uma das características da personalidade de Silas Cerqueira era a sua capacidade para congregar vontades individuais em torno de causas comuns, ultrapassando divergências que poderiam manifestar-se em outras vertentes da vida pública. Assim se explica a pluralidade de adesões que conseguia nas iniciativas que liderava, bem como a diversidade de sensibilidades que reunia nas equipas que formava.

Também, no campo internacional, o MPPM beneficiou do prestígio internacional de Silas Cerqueira como militante destacado da causa da paz e da solidariedade com os povos. A sua acção foi decisiva para a acreditação do MPPM como Organização Não Governamental pelo Comité das Nações Unidas para o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino, por Deliberação de 17 de Setembro de 2009. Foi, também, por influência sua, que foi possível trazer a Portugal, para participarem em iniciativas do MPPM, figuras de prestígio internacional, como sucedeu em Junho de 2012 com uma delegação das Nações Unidas composta pelo Presidente do Comité das Nações Unidas para o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino, Embaixador Abdou Salam Diallo, Embaixador do Senegal na ONU, e pelo Embaixador Riyad Mansour, Observador Permanente da Palestina na ONU, que participou no Seminário Internacional “A Questão Palestina e a Paz no Médio Oriente”.

Ao longo dos anos, Silas Cerqueira imprimiu ao MPPM a sua marca de lutador ousado e inquebrantável. Nesta data de pesar, apresentamos à sua família as nossas sentidas condolências e afirmamos o nosso compromisso solene de honrar a sua memória dando continuidade à sua luta até que se estabeleça uma paz justa no Médio Oriente e o povo palestino viva em liberdade no seu Estado independente, tendo Jerusalém Leste como capital.

Lisboa, 23 de Agosto de 2016

A Direcção Nacional do MPPM

 


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