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SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE A CATÁSTROFE HUMANITÁRIA EM GAZA E OS CRESCENTES PERIGOS DA ACTUAL SITUAÇÃO NOS TERRITÓRIOS PALESTINOS E NA REGIÃO
INTERVENÇÃO DE PIERRE GALAND
Obrigado por me terem convidado para participar no vosso Seminário. Não é anti-semitismo denunciar a guerra iniciada por Israel contra Gaza e a Palestina, denunciar os crimes de guerra e crimes contra a Humanidade cometidos durante um mês em Gaza. Não é anti-semitismo denunciar o Muro da separação, a colonização, a ocupação militar, as destruições maciças causadas por Israel na Palestina. Como também não é, na Cisjordânia e em Gaza, anti-semitismo ou anti-americanismo denunciar a cumplicidade da União Europeia e dos seus Estados-membros e a cumplicidade dos Estados Unidos que garantem a impunidade de que goza Israel na perpetuação da agressão e da injustiça feitos ao povo palestino, privado dos seus direitos fundamentais há 61 anos. Foi isto a Nakba – a Catástrofe. Após este comentário sobre o anti-semitismo, gostaria de vos lembrar esta análise breve mas pertinente dos Israelitas, feita pelo falecido Mahmoud Darwich: «Os Israelitas têm uma obsessão securitária que se deve a dois tipos de medos: um, legítimo e compreensível, devido ao que suportaram da parte dos Europeus. Mas disto foram parcialmente indemnizados à custa da Palestina – e, apoiando-se no sentimento de culpabilidade da Europa, vivem de um crédito infinito nos planos moral, económico e militar. A tal ponto que, actualmente, criticar a política israelita equivale a anti-semitismo. Mas há um outro tipo de medo que não podemos resolver, mesmo que aparecesse um novo Freud: é o medo daquilo que cometeram contra nós. Mas nós estamos dispostos a esquecer e a perdoar desde que nos restituam certos direitos. O ódio e o rancor não são eternos se a vítima obtiver uma indemnização. Só a Israel compete decidir» … assim respondia Mahmoud Darwich, em 2006, à jornalista italiana Géraldina Colotti do Il Manifesto que o interrogava sobre o tema «Israel tem medo da paz». Centralidade da Questão Palestina. A conquista de Jerusalém pelos Cruzados data de 1150, quase um milénio. O Próximo Oriente ocupou sempre um lugar central na história euro-mediterrânica, na história religiosa das duas margens do Mediterrâneo, nas relações entre as três religiões do Livro, nas transferências de saber, de cultura, nas trocas económicas, etc. A Palestina desempenha um papel central nesta história. Desde a partilha da Palestina e da criação do Estado de Israel em 1948, este Estado desempenha um papel importante no dispositivo estratégico das grandes potências e do Ocidente, na região. Isto era verdade durante a guerra fria e continua a sê-lo ainda hoje. Por outro lado, Israel apresenta-se como o único estado democrático da região e sempre geriu com cuidado as suas relações com a Europa e com os Estados Unidos. Israel beneficiou assim de uma relação privilegiada e de um estatuto de aliado essencial dos E.U.A. É, pois, na mais completa impunidade que Israel prossegue, desde há 41 anos, a sua ocupação militar, a colonização e a expropriação territorial da Palestina. É verdade que actualmente ocorrem muito mais mortes e violações dos direitos humanos no Darfour, no Leste do Congo, na Colômbia, no Iraque, no Afeganistão… e, contudo, a Palestina continua a ser uma questão central na ordem do dia a nível internacional. Na época da luta contra o apartheid na África do Sul, não foi o número de negros que morreram o factor determinante na condenação da África do Sul por crime de apartheid. A condenação recaiu sobre o racismo e as leis do apartheid. A opinião pública não se enganou quando se levantou maciçamente para denunciar os crimes de apartheid na África do Sul e na vizinha Namíbia. A um mesmo título, hoje, as grandes componentes da sociedade civil não se enganam ao denunciar a guerra e o bloqueio israelita contra Gaza e ao denunciar os excessos de Israel no conjunto do território palestino. Ao fazerem-no, estão a denunciar a violação do direito internacional, a querer defender uma concepção do direito dos povos a decidirem por si próprios, bem como a coexistência pacífica entre os estados. Hoje, a questão Palestina, que os Estados Unidos, e igualmente a Europa, tinham querido marginalizar, regressou ao centro do debate euro-mediterrânico. Trata-se do conflito mais antigo do século XX, que perdura no início do século XXI - 60 anos – Nakba- 1948-2008 - tendo em vista impedir o Povo Palestino de exercer o seu direito a decidir por si próprio: o seu direito à auto-determinação. Desde a famosa frase: «um povo sem terra (ou seja, o povo judeu) para uma «terra sem povo», a comunidade internacional que fundou o Estado de Israel fracassou na sua missão de permitir a livre expressão do povo da Palestina e de impedir que ele seja vítima de expulsões maciças, de colonização e de ocupação, de detenções arbitrárias, de repressão, de agressão militar e de discriminação racial. «Em resumo, o que se entrevê», diz Régis Debray, «em vez do Estado Palestino anunciado e desejado por todos, é um território israelita ainda indefinido, com enclaves, três municípios palestinos auto-geridos».(*) É urgente pôr fim àquilo que os nossos políticos, homens e mulheres, designam como «equidistância» e que acaba por não ser mais do que uma política de «dois pesos e duas medidas» (relações com o Hamas/com o Likoud). Está na hora de os responsáveis políticos realmente empenhados pela paz e pelos direitos dos povos previstos pela Carta das Nações Unidas se mobilizarem e terem em mente o que o Embaixador Alvaro de Soto, Representante especial do Secretário-Geral das Nações Unidas junto da OLP, sublinha no ponto 134 do seu relatório final de missão: «there is a seeming reflex, in any given situation where the UN is to take a position, to ask first how Israël or Washington will react rather than what is the right position to take». E acrescentou: «I confess that I am not entirely exempt from that reflex, and I regret it». O papel da opinião pública e do movimento de solidariedade Em 9 de Julho de 2004, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) dava o seu Parecer sobre as consequências jurídicas da construção do Muro nos Territórios Palestinos ocupados. Em 20 de Julho de 2004, por meio da Resolução ES-10/15 da Assembleia Geral das Nações Unidas, os Estados Membros, incluindo os Estados europeus, reconheciam que tinham a obrigação jurídica de fazer aplicar o Parecer do TIJ. Foi o resultado de um trabalho inacreditável por parte do movimento de solidariedade. Hoje, após a guerra de agressão cometida por Israel, após os crimes de guerra e os crimes contra a Humanidade cometidos pelo exército israelita, não podemos satisfazer-nos com acções humanitárias e de reconstrução. Devemos apoiar a exigência palestina de «reparação» e de qualificação dos crimes que foram cometidos: E exigir: Devemos mobilizar-nos igualmente: Face ao silêncio cúmplice da comunidade internacional, ao silêncio do Sr. Blair, Enviado Especial do Quarteto, ao silêncio do Sr. Javier Solana, Alto Representante da União Europeia para a política externa e de segurança, ao silêncio da União Europeia e dos Estados Unidos e ao fracasso da Conferência de Annapolis, é urgente apelar a uma nova iniciativa internacional, uma espécie de Madrid II para uma paz justa e duradoira no Próximo Oriente, a qual proclamaria o reconhecimento do Estado da Palestina dentro de fronteiras seguras e reconhecidas, as de 1967. A oferta da Liga Árabe de Beirute, em 2002, poderia constituir uma base útil para esse efeito. Antes de concluir, permitam-me que vos fale brevemente sobre uma iniciativa importante: a criação de um tribunal Russell sobre a Palestina. Esse tribunal de opinião, à semelhança do tribunal Russell sobre o Vietname, presidido, à época, por Jean-Paul Sartre, terá uma missão essencial: reafirmar o primado do direito internacional como base para a resolução do conflito israelo-palestino e analisar as diversas responsabilidades que têm conduzido à persistência da ocupação dos Territórios palestinos por Israel e à não aplicação das diferentes resoluções das Nações Unidas e do parecer do Tribunal Internacional de Justiça sobre a construção do muro por Israel. Para além dos crimes enquanto tais, temos, pois, o objectivo de revelar como o silêncio ou a cumplicidade de Estados, e também as falhas de organizações internacionais, permitem a Israel agir com uma imunidade total, e impedem a criação de um Estado Palestino. Concluírei com Mahmoud Darwich, que declarava ao Mundo: «Não é possível viver com a ferida do desaparecimento da pátria, a não ser que se instaure uma co-habitação equilibrada entre as «duas realidades», a judaica israelita e a árabe palestina, não podendo nenhuma delas erradicar a outra. (…) A esperança é uma doença incurável entre os Palestinos, a esperança numa vida melhor de que não seríamos nem heróis nem vítimas. (…) A esperança, pois, apesar de uma ocupação israelita que é uma declaração permanente de guerra contra os nossos corpos e os nossos sonhos, contra as nossas casas e as nossas árvores.» (*) Le Monde diplomatique – Agosto de 2007 «Pour une cure de vérité au Proche-Orient» («Para uma cura de verdade no Próximo Oriente») [Tradução: Graça Macedo]
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Minhas Senhoras e meus Senhores, Caros Amigos,